Entrevista sobre leite e suas curiosidades com nutricionista Adriane Antunes de Moraes

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foto tirada: J. B. Anthero

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Nutricionista (UFPEL), Mestre em Ciência e Tecnologia de Agroindustrial (DCTA/UFPEL), Doutora de Alimentos e Nutrição (DEPAN/UNICAMP), Pós-Doutora (TECNOLAT/ITAL), docente do curso de Nutrição da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA/UNICAMP campus de LImeira/SP).

O que é intolerância à lactose? Como se desenvolve e qual grupo mais atingido? Quais alimentos devem ser evitados?

Intolerância à lactose é uma inabilidade em digerir o açúcar do leite (chamado lactose) decorrente da diminuição parcial ou total na produção da enzima específica para “quebrar” esse açúcar. No Brasil temos 25% da população com este problema. Na maioria da população mundial após o desmame ocorre queda na produção da referida enzima. Homens e mulheres apresentam intolerância em igual proporção.

Alguns alimentos que devem ser evitados são o leite, os queijos não maturados (ricota, Minas Frescal, muçarela, cottage.), alguns iogurtes de consistência firme ou cremosa (porque, em geral, são adicionados de leite em pó ou de soro do leite) e medicamentos onde a lactose é utilizada como veículo para o princípio ativo.


Qual a diferença entre intolerância e alergia?

Essa é uma dúvida frequente. Alergia ocorre quando existe uma reação de hipersensibilidade na presença de um agente “estranho”, ocorrendo liberação de anticorpos. Algumas das proteínas do leite podem causar alergia. Os sintomas nesse caso podem ser urticárias, asma, rinite, entre outros. A intolerância, não é um quadro alérgico. Ela ocorre pela presença de um nutriente não digerido (nesse caso o açúcar do leite) no intestino, levando a sintomas de má digestão, flatulência (produção de gases) e diarréia.


Quais exames detectam intolerância a lactose e alergia a leite, respectivamente?

Muitos são os testes que podem ser empregados para diagnóstico de intolerância à lactose. Entre eles: biópsia do intestino; teste de tolerância oral (são ingeridos 50 g de lactose que corresponde à quantidade do açúcar em de 1 litro de leite); exame de urina quando lactose e etanol (álcool) são ingeridos conjuntamente; e teste de excreção de hidrogênio através da respiração após consumo de lactose (um dos testes mais comuns). Um novo método com emprego de biologia molecular passou a ser realizado recentemente no HC da USP/São Paulo, com coleta de sangue do paciente.

Para pesquisar alergia às proteínas do leite geralmente são feitos testes de contato (patch test) e/ou dosagem de IgE (imunoglobulina E, que é um anticorpo secretado na presença de alergia às proteínas do leite). Outra possibilidade é recomendação de dietas controladas com exclusão de lácteos, seguido de reintrodução dos produtos de origem láctea e observação clínica de sintomas característicos. Esse tipo de teste é simples e bastante útil para diagnóstico.


Alguns pesquisadores dizem que o leite não é recomendado na idade adulta. O que você acha sobre isto?

Começo essa resposta afirmando que os seres humanos são complexos e não existe um único padrão genético e alimentar entre todas as populações. Isso significa que o que é bom e recomendado para uma pessoa, não é necessariamente bom para todo o grupo. O contrário também é verdadeiro. É inegável que existe um consumo milenar de leite entre humanos e esse consumo conferiu benefícios nutricionais para muitas pessoas, especialmente em locais e períodos de escassez de alimentos e até de água. Da mesma forma, é inegável que o ser humano é onívoro e extremamente adaptável e essa capacidade de se adaptar à diferentes dietas, permitiu sua evolução. No entanto, nem todas as pessoas podem consumir leite e lácteos, assim como existem pessoas que não podem consumir amendoim, nozes, sementes, ovos, frutos do mar, soja, entre outros.

A importância da presença do leite na dieta atual ocorre, entre muitos motivos, porque a dieta moderna sem lácteos costuma ser pobre em cálcio e precisamos desse nutriente, do qual o leite é fonte importante. Atualmente estamos nos expondo menos ao sol devido à destruição da camada de ozônio e grande risco de câncer de pele. Os raios solares são fundamentais para liberação da vitamina D que ajuda a melhorar a absorção do cálcio da dieta, mesmo quando sua quantidade é baixa. Como a destruição da camada de ozônio é dificilmente reversível e o uso de protetores solares deve ser mantido, a inclusão de boas fontes de cálcio na dieta é imperativa!


Algumas pessoas tem diarréia ou dor abdominal ao tomar o leite. Isto é uma intolerância à lactose?

Provavelmente sim.


O leite de cabra ou outro pode ser uma alternativa para estas pessoas?

Não, o leite de cabra também apresenta lactose. Esse leite costuma ser recomendando para alguns casos de alergia ao leite de vaca. Vale esclarecer que o leite de cabra apresenta algumas proteínas que são diferentes das do leite de vaca e outras que são semelhantes e, portanto, o leite de cabra pode ser utilizando com sucesso em alguns casos apenas, dependendo a proteína específica responsável pela hipersensibilidade.

Para as pessoas intolerantes à lactose são recomendados leites deslactosados (ou chamados “leites de alta digestibilidade”) nos quais existe uma redução de pelo menos 90% no teor original do açúcar do leite. Esse produto é obtido do leite de vaca adicionado de uma enzima específica para quebrar o açúcar do leite. O leite de alta digestibilidade é facilmente entrado no mercado. Geralmente o produto pode apresentar um cor caramelizada e sabor um pouco mais doce. Não estranhe que o leite não está estragado,nem adicionado de doce de leite ou de açúcar, essas características são decorrentes do processo de obtenção do produto (quebra do açúcar seguida de tratamento térmico).


Como suprir a necessidade de cálcio para alguém que possui alergia a leite?

É possível atingir a recomendação diárias de ingestão de cálcio sem consumo de fontes lácteas, mas é mais difícil. O cálcio em alguns vegetais pode ser até mais biodisponível (capacidade que um nutriente apresenta de ser absorvido e chegar no órgão alvo) do que o cálcio presente no leite. O problema é a necessidade de ingerir uma quantidade em geral muito maior do vegetal do que estamos habituados. A biodisponibilidade do cálcio presente no leite é de 30 a 40%, porém, por ser um alimento líquido, ingerir por exemplo meio litro de leite, é muito mais fácil do que ingerir quantidade equivalente de brócolis, couve, mostarda verde chinesa, espinafre ou gergelim (que também são ricos em cálcio).


Muitas propriedades terapêuticas são atribuídas ao leite. Dizem que o leite frio pode tirar a dor do estômago; é bom para relaxar antes de dormir; Isto é verdade?

O leite apresenta muitas propriedades nutricionais e funcionais interessantes. Mas algumas afirmações feitas em relação ao leite são mito. Por exemplo, leite não costuma aliviar dor no estômago, só se for “dor de fome”, que outro alimento também aliviaria (risos). Pessoas com gastrites, por exemplo, devem até mesmo evitar o leite, porque o produto pode agravar a dor em alguns casos.

Por outro lado, um copo de leite morno à noite ajuda a aumentar o sono. Isso é científico e tem duas explicações. A primeira é a liberação de frações de determinadas proteínas (que são os “peptídeos bioativos”) que têm ação no sistema nervoso central conferindo sonolência. Outra ação é atribuída à melatonina que é uma substância (neurotransmissor) que confere sono e é secretado naturalmente no leite tanto da vaca como de outras fêmeas de mamíferos (até mesmo na mulher). Na Nova Zelândia, existe um leite chamado Night Milk que é um produto naturalmente mais rico em melatonina, por ser ordenhado à noite, horário em que as fêmeas dos mamíferos produzem um leite com mais melatonina. Esse produto tem a alegação de ajudar no sono. Eu nunca bebi, mas tenho curiosidade em experimentar.

Existem muitas outras propriedades funcionais no leite. Sugiro a leitura do livro que lançamos recentemente chamado “Leite para adultos: mitos e fatos frente à ciência” da editora Varela.


Algumas pessoas que pintam costumam tomar leite após pintura, pois alegam que ela possa protegê-las,existe explicação científica para isto?

Aparentemente sim, porque o leite tem propriedade de desintoxicar o organismo de algumas substâncias.
Obs.: A equipe Nutrição Para Todos agradeço a nutricionista Adriane Antunes de Moraes pela entrevista.
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3 comentários para “Entrevista sobre leite e suas curiosidades com nutricionista Adriane Antunes de Moraes”

  1. Raquel Bicudo disse:

    Parabéns a Adriane por suas respostas. Gostei muito.

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  2. fabiana silva barreto disse:

    Adorei!

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  3. Graziele G. Granada disse:

    Maravilhosa a entrevista, pois as perguntas são de grande valia e a professora Adriane foi esclarecedora. Parabéns para esta profissional.

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