Entrevista com Nutricionista Dra Alessandra Nunes da Seleção Brasileira de Boxe (2004-2008)

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Nutricionista Formada pelo Centro Universitário São Camilo
Mestre pelo Departamento de Fisiologia Cardiovascular da
Universidade Federal do Estado de São Paulo – UNIFESP Escola Paulista de Medicina
Docente do curso de Nutrição do Centro Universitário São Camilo
Nutricionista da Confederação Brasileira de Boxe no Ciclo Olímpico de 2004 a 2008
Nutricionista Responsável Técnica pela Unidade Central – Santo André – Matriz
Consultora de Nutrição do Portal Terra, Revista Dia a Dia (Diário do Grande ABC) e revista Expressão – ABC e Litoral
Nutricionista da Confederação Brasileira de Muay Thai – Rio de Janeiro; do Centro de Formação Esportiva Janeth Arcain e da Pretorian Hard Sports

O que é nutrição esportiva?

É a ciência que alia os conhecimentos que o profissional tem sobre um tema tão intenso que é a nutrição, para efetivamente melhorar a performance, o condicionamento físico e a saúde de indivíduos que se dedicam à prática de um esporte. Sabemos perfeitamente dos benefícios que alimentação equilibrada e a prática de atividade física trazem para o indivíduo, mas transformar todo esse conhecimento em algo prático para um atleta exige muitas vezes do profissional um exercício de paciência e determinação. Nosso trabalho chega a ser até artesanal, tamanho a necessidade de individualizar as condutas para cada atleta.

Como você conquistou espaço nesta área do boxe?

Cheguei à Seleção em 2004 através da indicação do Preparador Físico, o prof. Waldir Zampronha, um profissional pelo qual tenho muito respeito e admiração.


O Prof. Waldir conhecia meu trabalho como nutricionista e indicou meu nome. Lembro-me do dia que cheguei para me apresentar ao Coordenador do boxe, com uma proposta de trabalho. A primeira coisa que ouvi dele foi “Você está disposta a tirar leite de pedra?” Respondi: “Adoro desafios”!”e “a segunda foi:” Não temos dinheiro para pagar profissionais”. Respondi: “eu topo”!

De fato tive muitas vezes que tirar leite de pedra. Já havia trabalhado com outros esportes, como ciclismo, corrida, basquete e esportes de aventura, mas definitivamente quando comecei a trabalhar com o boxe a sensação que tive era de que eu não sabia nada, ou seja, tudo aquilo que eu seguia como diretriz para o boxe não servia, ou seja, precisava de adaptações. Fui desenvolvendo trabalhos, fazendo testes, errando e acertando (no início mais errando do que acertando!), até chegar naquilo que hoje eu considero como o aceitável.

Estamos muito longe ainda de chegarmos ao ideal em termos de nutrição para boxeadores, mas o primeiro e grande passo já foi dado.

O que você acha da alimentação de nossos boxeadores?

A alimentação dos boxeadores ainda é precária, mas em virtude da falta de conhecimento dos próprios atletas, dos técnicos e outros profissionais que trabalham diretamente com nossos atletas. Vivemos em um país com a maior diversidade de alimentos possível.

Comparando a alimentação de nossos atletas com a de outros (por exemplo, os cubanos), podemos afirmar claramente que temos um potencial para termos uma alimentação adequada. Falta investir em cultura, em projetos de educação alimentar e em melhor qualificação dos profissionais.

Como foi seu trabalho na Seleção Brasileira de Boxe? Quanto tempo ficou lá?

Fiquei na Seleção por 4 anos, ou seja, no Ciclo Olímpico de 2004 a 2008. No 1º ano o trabalho foi bem complicado, porque eu não conhecia nada do esporte, muito menos tinha idéia do que era a rotina de alimentação dos boxeadores.

Tive que começar a aprender primeiro a linguagem deles. Eu era a única mulher em uma equipe masculina. Além disso, tive que aprender a lidar com culturas diferentes. O coordenador técnico, os técnicos e o fisioterapeuta eram cubanos. Antes de mim havia passado outra nutricionista pela seleção, mas a mesma ficou pouco tempo.

Quando assumi a seleção tive primeiro que aprender a administrar o “machismo” da equipe. Por mais incrível que pareça, foi muito mais fácil se aproximar dos atletas do que da equipe técnica. A sensação que eu tinha era de que eles me “testavam” a todo momento. Uma coisa que eu acho que me ajudou muito foi o fato de me mostrar disposta a aprender com eles.

Comecei a freqüentar as lutas de boxe para entender o esporte, os termos utilizados, como era o controle de peso. À medida que eu ia conhecendo a fundo os procedimentos para controle de peso ia descobrindo quanto barbaridade era feita para que os atletas conseguissem se manter em um peso desejado. Em geral dietas altamente restritivas, sem carboidratos, com muita proteína, com alto controle de ingestão de água (imagine que havia atletas que ficavam mais de 02 dias sem tomar nenhum copo de água). Fui aos poucos colocando dietas individualizadas e trabalhando palestras de orientação. Tudo o que eu fazia, antes de fazer eu tinha que explicar o porque e mostrar resultados.

Lembro de uma situação onde eu quis introduzir a maltodextrina para reposição de carboidratos. Reuni toda a equipe técnica e os atletas e ministrei uma palestra explicando quais seriam os benefícios que teríamos com a reposição e o porquê decidi por aquela conduta. No final da palestra um dos técnicos, cubano, levantou-se e disse que não concordava com aquilo porque em cuba eles davam apenas laranja ou banana. Eu já estava na seleção há 1 ano e meio. Levantei e disse: “sinto muito! Mas agora você está no Brasil e a conduta nutricional aqui é minha. Será feito e ponto final”!

Os atletas ficaram mudos e o técnico passou mais de 1mês sem falar comigo. Aí, tive a idéia de montar um teste para provar que a maltodextrina funcionava. Dividi a equipe e apliquei maltodextrina para alguns e suco dietético para outros (placebo). Os atletas tinham que atirar golpes durante 02 minutos e contávamos a seqüência de socos. Terminado os 2 minutos aplicava-se a malto ou o placebo, eles descansavam por 15´e voltavam a repetir a seqüência de golpes. Os atletas que utilizaram a maltodextrina tiveram um resultado muito superior aos atletas que ingeriram placebo. Reuni todos novamente, mostrei os resultados para todos e o técnico acabou pedindo desculpas por não ter aceitado a minha conduta!!!

Depois disso nunca mais tivemos problemas, pelo contrário, eles começaram a ter confiança no meu trabalho e mesmo quando estavam fora do país mantinham comunicação via rádio ou email perguntando o que tinham que fazer com a alimentação de cada atleta, o que teriam que ministrar ou tirar da alimentação de cada um diante das diferenças de alimentação de cada país.

Tive oportunidades de viajar com a Seleção para alguns lugares e o privilégio de chefiar a delegação no Pré-Olímpico da Guatemala, um dos eventos que antecedem os jogos olímpicos e os atletas tem que se classificar para os jogos. Foi muito divertido ver a reação de outros países quando sabiam que a chefe da equipe era uma mulher! Tivemos a melhor participação do Brasil em pré-olímpico!!!

Também pude participar dos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro. A seleção de boxe foi a única equipe que contou com o nutricionista no quadro técnico nos jogos Panamericanos. Ponto para nós!

Quando acabaram as olimpíadas (2008), fiquei até o final do ano passado e decidi sair e ir para a Confederação Brasileira de Muai-Thay. Pude ter uma vivência de um período de ciclo olímpico (04 anos) e agora estou aprendendo tudo de novo com outro tipo de luta de contato.

O que é mais fácil convencer, o boxeador ou treinador…?

Sem dúvida os boxeadores!

Lembro-me do filme menina de ouro, achei-o muito interessante, além de admirar a garra daquela garota. Mas comente, no Brasil temos muitas meninas de ouro no Boxe?

Acredito muito no boxe feminino. As mulheres em geral são mais disciplinadas e determinadas. A Duda Yankovich é a menina de ouro do Brasil. Infelizmente, se o esporte em questão já é pouco valorizado, imagine as dificuldades com o boxe feminino.


As regras do boxe, muitas vezes facilitam a má alimentação e desidratação. Comente um pouco sobre isto?

Sim, sem dúvida. Temos uma diferença grande entre o boxe olímpico e o boxe profissional. No boxe olímpico é mais fácil manter o controle de peso dos atletas, porque geralmente eles têm que participar de vários campeonatos. Assim, no boxe olímpico trabalhamos com dois níveis de peso, que seria o peso de rendimento e o peso de categoria. O peso da categoria é o estabelecido pela AIBA, por exemplo: 48, 51, 60 kg. E o peso de rendimento é o peso no qual o atleta tem que se manter para ter um bom desempenho. Ex: o nosso atleta da categoria de 48 kg tem peso de rendimento de 51-52, ou seja, ele tem que se manter sempre nessa faixa de peso. De 10 a 15 dias antes dos campeonatos começamos a fazer os ajustes na dieta para que aos poucos ele vá abaixando para os 48 kg. Na hora da pesagem oficial ele tem que apresentar esse peso e na hora da luta ele tem que ter subido para o peso de rendimento. Às vezes temos menos de 10 horas para fazer o atleta subir para o peso de rendimento, e se ele tiver luta dois dias seguidos temos menos de 12 horas para fazê-lo abaixar novamente o peso para o peso de categoria. No entanto, após a luta, em geral os atletas perderam no mínimo 1,5 a 2,0 kg.

Já no boxe profissional o atleta às vezes faz 01 ou 02 lutas/ano. Ou seja, ele passa o ano inteiro fora do peso e começa a se preparar 02 a 03 meses antes da luta. E também, normalmente, a pesagem de uma luta profissional acontece com um intervalo de tempo maior, por exemplo, a pesagem acontece na 5º feira de manhã e a luta é na 6º feira à noite. Já vi atletas subirem na balança tendo que ser auxiliado pelo técnico, tamanho o nível de desidratação, assim como também já vi atletas subirem 12 kg de peso em menos de 36 horas!

Em virtude disso trabalhamos com um organismo bem debilitado e com um grande risco de morte súbita em virtude da desidratação.

Durante todo o tempo que eu trabalhei com a Seleção sempre incentivei a hidratação e chegamos bem perto do que se considera o ideal, no entanto, as diretrizes de hidratação que seguimos para todos os outros esportes não são adequadas para as lutas de contato. Seriam necessários mais estudos para chegarmos a uma nova nova diretriz abrangendo os esportes de luta

Alguns profissionais gostam de sugerir antioxidantes para atletas. Lembrando de que a atividade física em si gera oxidação, como equilibrar prescrições saudáveis, do exagero das recomendações….?

O organismo do atleta de luta é uma bomba relógio prestes a explodir. Os antioxidantes são condutas que costumamos adotar hoje até como rotina, uma vez que sabemos dos benefícios que essas substâncias trazem ao organismo.

Temos muita dificuldade de ajustar a alimentação em virtude de que os atletas têm que viajar muito para os campeonatos. Às vezes chegamos a países que não temos frutas, verduras, legumes.

O atleta olímpico tem a vantagem de passar por avaliações físicas e por exames bioquímicos freqüentemente, que é uma exigência do COB.

Os atletas do boxe apresentam muita alteração das enzimas hepáticas (ainda não sabemos o porquê. Sugere-se 02 hipóteses: trauma na região do fígado, em virtude dos golpes ou baixo nível de hidratação).

Assim, temos que estar sempre atentos aos exames bioquímicos para ver até onde podemos chegar com uma prescrição de vitaminas ou minerais, ou de qualquer outra substância.

Quando é necessário suplementar a alimentação de um atleta ou lutador de boxe?

Quando temos problema de atingir o valor energético e os macro e micronutrientes em virtude do volume.

Imagine por exemplo uma situação na qual eu tenho um lutador da categoria Super Pesado, que em que se manter em 100 kg, e tem uma necessidade diária próxima de 7000 kcal. Como eu vou conseguir atingir esse volume se ele tem dois treinos diários e eu tenho que ter o controle de volume e horário das refeições, porque eles não podem ter nenhum alimento no estômago porque passam mal. Ai não tem como pensar que atingiremos as necessidades diárias somente com a alimentação.

Também temos que usar os suplementos em viagens, porque é uma forma de manter o organismo do atleta mais estável caso o país que sedia um determinado campeonato não tenha uma boa estrutura para atender a alimentação dos nossos atletas.

Comente um pouco sobre o uso de anabolizantes?

Não se usa esse tipo de substâncias com atletas olímpicos em virtude do Controle Antidoping do COB e do COI. Já vi alguns atletas profissionais fazendo uso dessas substâncias, mas isso é conduta do médico e fisiologista que acompanha esse atleta. O nutricionista não deve em hipótese alguma fazer parte dessa prescrição ou conduta. E temos também que documentar tudo, por exemplo, se estamos acompanhando um atleta que está fazendo uso de anabólicos devemos preparar um relatório onde conste a prescrição do uso e o profissional que está responsável por essa conduta. Em casos de problemas o nutricionista está resguardado.

Quais são suas sugestões para que ganhemos dos lutadores cubanos e do mundo na Olimpíada de 2016. Lembres-se de que o Presidente e o Ministro dos Esportes podem estar lendo este blog…?

Estive 02 vezes em Cuba onde tive a oportunidade de ver de perto os atletas de boxe. Cuba é um país infinitamente com menos estrutura que nós, assim seria inconcebível pensar que nossos lutadores não poderiam ganhar dos cubanos. Eles têm muitas dificuldades com alimentação (não tem carne vermelha, frutas, verduras e legumes).

Eles recebem uma xícara de café preto e um pão de farinha branca com manteiga antes do treino. Durante o treino somente água. Após o treino água com açúcar ou quando tem, comem 1 fruta, almoçam arroz+feijão preto+carne de porco ou frango, treinam novamente e recebem novamente após o treino a água com açúcar e jantam a mesma refeição servida para o almoço.

Quando eles vêm para o Brasil ficam maravilhados com a diversidade de alimentos (em virtude disso muitos desertam do país quando tem oportunidade).

Agora, percebi uma coisa que não temos no Brasil, um amor à pátria, uma dedicação absurda aos treinos, um comportamento que já vem sendo moldado desde infância onde o treinador é a figura máster e nada do que o treinador fala é questionado.

Eles aprendem esse comportamento desde a escola de base. Em qualquer escola que você vá, a grade curricular contempla muitas horas para a disciplina de educação física. E o que temos aqui no Brasil como incentivo ao esporte desde a escola de Base?

Cuba é um país que ganha muitas medalhas em esportes individuais, a que se deve esta vitória? Fidel Castro pagava bem aos atletas, ele realmente incentivava o esporte?

Incentivo sim, dinheiro não! Os atletas não ganham nem U$10,00 (dez dolares) mensais! Evidente que eles têm moradia, alimentação, médicos e hospitais gratuitos, mas são moradias precárias e a alimentação mais precária ainda e nessa última vez que estive em Cuba tive oportunidade de conhecer alguns hospitais que chega a dar medo de tão precárias que são as condições de higiene.

Mas você não vê um atleta reclamando da comida que tem no prato, e nem do lugar que moram! Aqui, por mais dificuldades que temos com o boxe (porque não é um esporte elitizado!), nossos atletas tem boas condições de alimentação.

Agora, como falei anteriormente, eles são doutrinados desde pequenos a gostarem do esporte, a defenderem sua pátria e a idolatrar os governantes.

Como você lida com atletas teimosos, que não ouvem suas sugestões?

O trabalho do nutricionista é um trabalho de formiguinha. Somos educadores e temos e temos que ter persistência naquilo que acreditamos.

Sempre tive excelente relacionamento com todos os atletas, mesmo com os mais teimosos. Tive um atleta que era o mais arredio com as minhas condutas. Reclamava de tudo, falava que não ia fazer o que eu estava pedindo. Eu nunca bati de frente, e aos poucos fui dando a atenção para toda a equipe e menos para ele. No Panamericano ele foi medalha de ouro, desceu do ringue com a medalha e colocou no meu pescoço e falou: “Dra, é para mostrar que eu sigo o que você me fala!” Aquele gesto valeu por todos os anos de trabalho e não tem dinheiro no mundo que pague.

O que você sugere aos atletas de academia em relação à alimentação?

Não é conselho, é um pedido: Aos atletas: procurem sempre o auxílio de um nutricionista. Aos educadores físicos: Respeitem a legislação e encaminhem seus alunos para um nutricionista!

Para entrar em contato com Dra Alessandra Nunes

http://www.bemnutrir.com.br/

Tel (11)4472-8300

obs.: O Blog Nutrição Para Todos agradece a entrevista da nutricionista Alessandra Nunes

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