Entrevista com nutricionista Roberta Figueiredo sobre gorduras, colesterol e saúde

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Roberta Marcondes Machado Figueiredo
Nutricionista, especialista em Nutrição nas Doenças Crônicas não Transmissíveis pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein.
Doutoranda do Laboratório de Lípides, Disciplina de Endocrinologia e Metabologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. 

 

O que são lipídeos e gorduras?

Os lipídeos são substâncias químicas que, possuem baixa solubilidade em água e estão distribuídos em todos os tecidos do corpo, principalmente nas membranas celulares e nas células de gordura. Alguns exemplos de lipídeos são: os triglicérides, os fosfolípides, as vitaminas lipossolúveis (A,D,E,K) e alguns hormônios. A gordura (ou triglicérides) é um lipídio e é a forma sob a qual a os ácidos graxos, provenientes da dieta ou da síntese corporal, são armazenados nos organismo. Para uso alimentar, temos as gorduras provenientes de fonte animal, como a manteiga e a banha e as de fonte vegetal, neste caso, os óleos.

Normalmente em exames de sangue, as pessoas referem “meu colesterol está alto”. O que é isto? E por que acontece?

Inicialmente, deve-se atentar para qual tipo de colesterol a pessoa se refere, pois o Colesterol Total (CT), que vemos nos exames de sangue, compreende o colesterol contido nas frações de LDL, HDL e VLDL, partículas conhecidas por lipoproteínas que transportam o colesterol no sangue. Pelo fato do colesterol ser uma gordura, possui baixa solubilidade em água, portanto, para ser transportado no sangue necessita do auxílio das lipoproteínas.

As lipoproteínas diferem quanto sua função e relação com o desenvolvimento de doença cardiovascular. Sabe-se que as LDL estão associadas ao aumento do risco de doença cardiovascular, enquanto as HDL protegem contra o aparecimento da mesma. Por isso, o colesterol contido nas frações de LDL (LDL-c) ficou conhecido como “colesterol RUIM” e aquele contido nas HDL (HDL-c) chamado de “colesterol BOM”.
O aumento do colesterol no plasma (hipercolesterolemia) pode ser conseqüência de alguma doença (hipotireoidismo, doenças renais, diabetes melitus), ação medicamentosa, ou ainda, pode ser decorrente de fatores genéticos ou estilo de vida, como por exemplo, dieta inadequada. Seja qual for a causa, deve ser investigada e tratada.

Qual a recomendação dietética para o tratamento da hipercolesterolemia?

As recomendações nutricionais para hipercolesterolemia visam normalizar as concentrações de colesterol no sangue, para isso, deve-se adequar a ingestão de calorias visando manter ou alcançar um peso saudável, ajustar a ingestão de gordura total da dieta (20 a 25% do valor calórico total) e reduzir o consumo de alimentos ricos em gordura saturada (leite, iogurtes integrais, queijos amarelos, manteiga, carnes gordas, pele de frango, óleo de dendê, leite de coco e gordura de coco,) e ricos em colesterol (gema de ovo, camarão, lagosta, ostra, marisco).

A dieta do mediterrâneo aumenta o HDL (colesterol bom)? O azeite ou outros óleos aumentam o HDL (colesterol bom)?

A “dieta do Mediterrâneo” se refere a uma alimentação rica em verduras e carnes magras e uma larga utilização de azeite de oliva. O azeite de oliva é rico em um tipo de ácido graxo conhecido por monoinsaturado, esse quando usado, e em substituição a gordura saturada são capazes de reduzir o LDL-c (o colesterol “RUIM”) sem concomitante redução do HDL-c (colesterol “BOM”).

Outro tipo de ácidos graxos também presentes nos óleos vegetais são os poliinsaturados, que também reduzem o LDL-c quando utilizados em substituição a gordura saturada, entretanto, podem reduzir as concentrações de HDL-c, por mecanismos que ainda não foram totalmente descritos. Todavia é importante lembrar que os efeitos desses ácidos graxos no organismo não se limitam as alterações em HDL e LDL, por esta razão, estudos recentes tem mostrado que o consumo de ácidos graxos monoinsaturados e mais especialmente dos poliinsaturados estão relacionados a uma redução do risco de doença cardiovascular. Ou seja, essas gorduras não são capazes de reduzir o HDL-c, entretanto conferem benefícios à saúde e proteção cardiovascular. Desta forma, seu consumo deve ser incentivado, dentro dos valores adequados de ingestão de gordura, pois mesmo tendo efeitos benéficos, conferem 9 quilocalorias por grama e portanto podem contribuir para o ganho de peso se usadas em excesso.

Você recomenda suplementação de Omega 3 para prevenção de doença cardiovascular?

Primeiramente é importante comentar que temos Ômega 3 (ω-3) em óleos vegetais e óleo de peixes (“fish oil”) como salmão, cavala, sardinha etc. Ambos são capazes de reduzir os triglicérides e os LDL-c e possuem propriedades anti-inflamatória e anti-trombótica. Entretanto, estudos populacionais têm demonstrado maior associação entre o “fish-oil” (óleos de peixes) e proteção cardiovascular.

Uma dieta equilibrada, na qual o preparo dos alimentos seja feito com óleo de canola, girassol ou mesmo soja, e o consumo de peixes ocorra de 2 a 3 vezes por semana, certamente atenderá as recomendações de ingestão para alcançar os efeitos protetores. Desta forma, recomenda-se que, primeiramente, as pessoas sejam orientadas a aumentar a ingestão dos alimentos fonte de ω-3. Entretanto, para aqueles pacientes que não conseguem alcançar as recomendações e em especial aqueles que já tiveram algum evento cardiovascular, pode se pensar na recomendação de 1g/dia. Para o tratamento da hipertrigliceridemia são necessárias doses mais altas (3 a 4 g/dia) que requerem acompanhamento médico.

O que é gordura trans? Por que não se recomenda seu uso na alimentação?

A gordura trans ou gordura vegetal hidrogenada é produzida pela indústria por meio de um processo denominado Hidrogenação. Neste processo o óleo é transformado em uma forma de gordura mais sólida e mais estável em temperatura ambiente, o que confere maior durabilidade aos produtos. Diversos estudos têm demonstrado que a gordura trans é capaz de aumentar o LDL-c (colesterol “RUIM”) e reduzir o HDL-c (colesterol “BOM”) aumentando assim o risco de doença cardiovascular, desta forma seu consumo deve ser evitado. Estudo recente realizado em nosso laboratório (Laboratório de Lípides, LIM-10, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP) evidenciou que o consumo de gordura trans, por animais experimentais, acarretou severo acúmulo de gordura no fígado, além de importante aumento de colesterol e triglicérides no sangue.

Atualmente quais os produtos que contém gordura trans?

Após a divulgação dos resultados de vários estudos e tendo ficado bastante claro os malefícios conferidos pela gordura trans, existe hoje um forte pressão para que a indústria substitua a gordura trans dos produtos por outra forma de gordura que não confira malefícios à saúde. Entretanto é importante ficar atento para os produtos industrializados, pois são eles que fornecem esse tipo de gordura na alimentação, sob a forma de: sorvetes, batatas-fritas, salgadinhos, bolos, biscoitos e alimentos preparados com gorduras hidrogenadas e margarinas.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) determina que todos os produtos apresentem no rótulo informações sobre o conteúdo de gordura trans. Alguns alimentos ainda contêm gordura trans e essa informação deve estar descrita no rótulo.

Muitas pessoas e profissionais da saúde acreditam que o óleo quando aquecido se torna gordura saturada, isto é verdade?

Não, o óleo quando aquecido não satura. Para transformar gordura insaturada em gordura saturada é necessário submeter o óleo a temperaturas altíssimas, muito superiores às temperaturas de fritura, por exemplo. O que ocorre quando utilizamos os óleos para fritura é que neste processo são formadas várias substâncias, como por exemplo, a acroleína, que podem fazer mal a saúde, especialmente ao estômago.

Qual a diferença entre creme vegetal e margarina? Qual é o mais indicado para alimentação saudável?

Tanto o creme vegetal como a margarina são produzidos a partir de óleos vegetais, entretanto, o processo de fabricação de cremes vegetais evita a formação de ácidos graxos trans sendo portanto mais indicado para uma alimentação saudável. Atualmente, já se encontra muitas margarinas livre de gordura trans.

Quais sugestões você faria para indústria do fast-food para redução do colesterol?

Uma boa idéia a ser seguida é a campanha que está sendo realizada em Nova Iorque, para banir o uso de gordura trans de todas as refeições servidas na cidade, por isso entende-se: restaurantes, fast-food, padarias etc. Além disso, seria interessante que os fast-foods passassem a oferecer no cardápio opções saudáveis, como saladas, grelhados e frutas, além de substituir o uso de gordura trans por outra gordura mais adequado ao consumo.

Quais os riscos para as pessoas que fazem dieta com baixa quantidade de gordura?

A gordura tem funções vitais em nosso organismo, por exemplo, todas as células necessitam de lipídios (ácidos graxos, colesterol e fosfolípides) para formação de suas membranas celulares. Além disso, as gorduras servem como isolante térmico, proteção de órgãos e também, são importante fonte energética. Os ácidos graxos linoléico (ω-6) e linolênico (ω-3), chamados de ácidos graxos essenciais, não podem ser sintetizados pelo nosso organismo e por isso devem ser providos pela da dieta.

Devemos lembrar também, que toda vez que suprimimos um grupo alimentar, aumentamos muito o consumo de um outro grupo. Por exemplo, se reduzirmos de mais o consumo de carboidratos, aumentaremos muito o consumo de proteínas e gorduras, por outro lado, se reduzirmos muito o consumo de gordura aumentaremos a ingestão de carboidratos e proteínas, o que também não é saudável.

A banha é ainda uma gordura utilizada pela população brasileira, em especial pelas regiões Nordeste, Centro-oeste e Sul. O que você recomendaria a estas pessoas?

A banha é uma gordura animal e, portanto saturada, que se consumida em excesso pode trazer prejuízos à saúde. Por outro lado, não contém gordura trans. As diferenças regionais existem e devem sim, ser respeitadas, mas deve-se orientar para que não haja um consumo elevado deste tipo de gordura. Além disso, podemos incentivar o uso de óleos vegetais, como azeite, canola, girassol e soja para aumentar o consumo de poliinsaturados.

Alguns profissionais da saúde recomendam ácido linoléico conjugado para redução de peso, isto funciona?

Apesar de alguns estudos terem mostrado resultados positivos com relação a perda de peso, a maioria dos trabalhos são inconclusivos ou não mostram resultados neste sentido. Por outro lado, diversos estudos mostraram que o ácido linoléico conjugado, ou CLA, é capaz de induzir o acúmulo de gordura no fígado, além de alterações metabólicas bastante prejudiciais. Em função disso, não recomendaria o seu uso.

Qual óleo de cozinha as donas de casa deveriam usar? O que é óleo de canola?

O uso dos óleos de canola, girassol ou mesmo soja contemplam as recomendações de consumo de ácidos graxos essenciais e são todos saudáveis e benéficos à saúde. O óleo de canola é extraído do grão de uma planta da família das crucíferas (Brassica napus L. e Brassica rapa L.) e em sua composição há uma alta concentração de ácidos graxos poliinsaturados e baixa concentração de saturados, e portanto benéfico para saúde.

Qual melhor tratamento para esteatose hepática, por que esta doença ocorre?

A esteatose hepática se refere ao acúmulo de gordura no fígado e sua gênese envolve diversos fatores, entre eles: consumo elevado de gorduras, excesso de peso, perda de peso muito acentuada, consumo abusivo de álcool e uso de alguns tipos de medicamentos. Além disso, a esteatose hepática tem forte relação com o quadro de resistência insulínica. O tratamento engloba adequação da dieta para perda ou manutenção do peso ideal, perda de peso gradual quando necessário (aproximadamente 3 quilos por mês), redução da ingestão de gordura e incentivo a prática de atividade física.

Quais referências você passaria a nossos internautas para aprenderem mais?

Os site da American Heart Association (www.americanheart.org), também o da Sociedade Brasileira de Cardiologia (www.cardiol.br) e Agencia Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA (www.anvisa.gov.org) são boas fontes de informações fidedignas.

Obs.: Nós do Blog Nutricão Para Todos,recomendamos vocês procurarem ajuda de um nutricionista ou médico antes de comprarem suplementos para sua alimentação!

Obs1.: O Blog Nutricão Para Todos, agradece a nutricionista Roberta Figueiredo a gentileza de nos ter respondido a entrevista acima!

 

 

 

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