Entrevista com profº Emérito Malaquias Batista Filho sobre Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil

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PhD em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo; Profº Emérito do Departamento de Nutrição da UFPE e da UFBA; Consultor “ad hoc” do CNPq; Membro do Conselho editorial da Revista Brasileira de Epidemiologia (SP), Cadernos de Saúde Pública (RJ) e Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil (PE); Ex- Consultor das Nações Unidas (FAO, OMS e UNICEF); Pesquisador e docente de pós-graduação do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira – IMIP (PE). Autor/Co-autor de 40 capítulos de livros didáticos; Autor/co-autor de mais de 145 artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais. Laureado com a Comenda “Professor Fernando Figueira”, do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, com o  “Prêmio Josué de Castro”, da Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco; da “Medalha Oswaldo Cruz” (Ministério da Saúde) e “Prêmio Josué de Castro” (V Simpósio Nacional de Geografia da Saúde), da Universidade Federal de Pernambuco.

 

Josué de Castro dizia: “Percebi a fome como um flagelo sendo um problema mais político e econômico do que propriamente a falta de alimentos”. Como o senhor percebe a fome?

Considero que, ainda hoje, Josué de Castro tem toda a razão. Com os recursos materiais existentes, com os instrumentos do conhecimento científico e tecnológico disponíveis, a fome é uma transgressão social e ética com um forte substrato político.

 

Quais são as estratégias para combater a desnutrição na região rural deste país tropical?

A desnutrição em crianças no meio rural durante três décadas, manteve-se entre 40% e 50% mais elevada que em populações urbanas no Brasil. Agora se observa que também está em rápida diminuição, caminhando mesmo para uma situação de convergência epidemiológica em relação ao meio urbano. Deve-se notar que o controle do problema atende a mesma estratégia: redução da pobreza rural, moderação das taxas de fecundidade, diminuição dos preços relativos dos alimentos básicos, aumento da escolaridade das mães, acesso e resolutividade das ações de saúde, acesso e uso da terra, à assistência técnica, ao crédito orientado, ao mercado de compra e venda de bens e serviços. É a própria receita genérica do desenvolvimento econômico e social.

 

Como o senhor percebe o trabalho de ONGs no combate deste problema?

É sempre a diferença bíblica do joio e do trigo. Algumas ONGs e instituições públicas fazem um excelente trabalho, como a ASA, a Pastoral da Terra e da Criança, o Greenpeace. Outros confundem filantropia com pilantropia.

 

Qual sua opinião sobre a multimistura no combate da desnutrição infantil?

A multimistura é rica em fibra, em ferro, vitaminas do complexo B e, em certa medida, proteínas. No entanto, em termos de efetividade, sua contribuição é praticamente nula, como já evidenciaram alguns estudos. Não atende, de fato, ao perfil epidemiológico de nossos problemas nutricionais mais evidentes.

 

Um dos 8 objetivos para Desenvolvimento do Milênio da ONU é a redução da desnutrição infantil. O site oficial do PT apresentou isto como uma meta alcançada. Realmente podemos comemorar ou estamos fazendo propaganda partidária?

De fato, a rápida redução da desnutrição, expressa como déficit da relação peso/idade, peso/altura e altura/idade é uma realidade fora de qualquer dúvida. Não se trata, no entanto, de monopólio de uma sigla partidária, embora não se possa negar o impulso de políticas específicas de segurança alimentar e nutricional no governo Lula.

 

O Brasil é o país com maior número de Banco de Leite Humano do mundo, e possui taxas baixas sobre aleitamento materno exclusivo até 6 meses de idade. Qual sua opinião sobre essa situação?

É um aparente paradoxo que o Brasil, com tantos bancos de leite, apresente um desempenho, senão medíocre, pelo menos insatisfatório em termos de duração do tempo de amamentação, particularmente do aleitamento materno exclusivo. É que o problema é bem mais complexo que a simples relação banco de leite/amamentação. O banco de leite é parte da solução, mas não é toda a chave do problema.

 

Sabemos que a Chamada Nutricional e POF realizam pesquisas pelo Brasil, sobre diversos aspectos e estado nutricional. Entretanto, podemos afirmar que no Brasil existe um boa cobertura de pesquisas nos bolsões de pobreza?

Esta é uma falha dos estudos de base populacional no Brasil. As pesquisas são habitualmente desenhadas para compreender o universo da população, sem caracterizar contextos ou nichos de riscos especiais. No entanto, existem alguns estudos pontuais referentes a etnias (índios e quilombolas) e populações de áreas de invasão no meio urbano e rural. No Recife, estamos nos preparando para um estudo de áreas faveladas.

 

Acompanhando os recentes estudos sobre estado nutricional em crianças, nos próximos 10 a 20 anos não teremos mais desnutrição infantil.  Qual governo o senhor acredita que mais reduziu a desnutrição/mortalidade infantil: Governo Lula ou Fernando Henrique?

A desnutrição, como evento de importância epidemiológica, deve ser controlada no Brasil nos próximos dois anos (projeção matemática), não em 10 ou 20 anos. Em termos de reversão do problema, sem dúvida o governo Lula foi bem mais efetivo que o de Fernando Henrique. Um placar tentativo? 3 x 1. Todavia, a compreensão da grande mudança não pode ser reduzida ao protagonismo de dois presidentes. É um processo político, econômico e social complexo, que deve ser analisado de forma mais ampla e contextualizada. Uma tarefa para a história.

Qual sua opinião sobre o Brasil Carinhoso para o combate da desnutrição infantil?

Toda iniciativa que objetiva aumentar o poder de compra de famílias de baixa renda e dirigir ações específicas para carências nutricionais, como a anemia, a desnutrição e a deficiência de vitamina A, deve ser saudada como uma contribuição positiva e louvável. Só que tudo isto são ações de curto prazo; não podemos perder o horizonte de uma política maior, que contemple o desenvolvimento como um ideal de cidadania. Este é o caminho mais longo e definitivo.

Obs.: Agradecemos ao prof Emérito Malaquias Batista Filho pela brilhante entrevista!

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2 comentários para “Entrevista com profº Emérito Malaquias Batista Filho sobre Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil”

  1. Anete Rissin disse:

    Parabéns à equipe de organização deste Blog pela excelente entrevista realizada com o Prof. Malaquias, a quem eu considero como o maior cientista nutrólogo deste país! Sem dúvida, ele se enquadra no rol dos grandes estudiosos e humanistas da área de alimentação e nutrição, a exemplo de Josué de Castro e do Prof. Nelson Chaves. As contribuições científicas e sociais que ele vem dando ao país ao longo de sua trajetória são obstinadas e incansáveis; sem dúvida, o Brasil deve muito à ele…

  2. Dante Risco disse:

    Uma grande alegría ler as opinioes do Prof. Malaquias.
    Foi o seu alunno no Curso Internacional de Nutricao e Atenciao Primaria no anno 1984 e aprendieu, principalmente, que os problemas da nutricao dos paises tem a grande componente da decisao politica.
    De entao, a minhas experiencias mudaron grandemente y os resultados das pesquisas tambem.
    Parabens ao Prof. Malaquias.
    Eu sou Medico Pediatra do Peru

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