Carta de Repúdio contra publicidade do CONAR

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São Paulo, 4 de abril de 2014.

Ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária
Ilmo. Sr. Gilberto C. Leifert – Presidente do CONAR
Avenida Paulista, 2073
Edifício Horsa II, 18 andar
Conjunto Nacional
01311-940
São Paulo – SP

Ref. Campanha Publicitária “Palhaço” e “Feijoada”.

Prezado Sr. Presidente e demais membros do CONAR:

As entidades abaixo assinadas, vêm, pela presente, manifestar sua indignação face a nova campanha publicitária do CONAR, recentemente veiculada nas mais diversas mídias, em especial, quanto aos vídeos “palhaço” e “feijoada”.

Os vídeos omitem dados essenciais sobre a publicidade, no caso, que ela é regulada por lei, o Código de Defesa do Consumidor, em seus artigos 36 a 38. Por ser expressão da atividade econômica (e não mera liberdade de expressão), a publicidade encontra limites na regulação assegurada pela norma consumerista, em harmonia com o previsto no artigo 170 da Constituição Federal que trata da livre iniciativa – mas limita-a ao respeito aos direitos ambientais, trabalhistas e dos consumidores.

Ou seja, o Código de Ética do CONAR não é o único que traça balizas para a publicidade no Brasil, mas ao revés, ele deve estar de acordo com o Código de Defesa do Consumidor e suas determinações podem ser consideradas “soft law”, ou seja, são parâmetros normativos mas não leis propriamente ditas, que devem ser seguidas por todos. Nesse sentido, toda publicidade deve ser verdadeira (princípio da veracidade) e facilmente identificada pelo receptor (princípio da identificação da mensagem publicitária). Não pode ser enganosa e nem abusiva. A identificação da enganosidade é relativamente simples, mas quando nos deparamos com a abusividade, as coisas ficam um pouco mais complicadas.

O Código de Defesa do Consumidor, sendo norma de ordem pública e interesse social, é sobretudo uma norma principiológica, que traz princípios amplos e em alguma medida abstratos. Quando trata de abusividade, segue esse padrão e no artigo 37, § 2o, com balizas para a definição de abusividade: “É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.”

Como identificar uma publicidade que seja discriminatória de qualquer natureza? O que ofende a Maria, não necessariamente ofenderá ao João. Quem poderá julgar isso? Quem pode dizer se uma mensagem é ofensiva a um determinado grupo social, minoria ou mesmo a qualquer indivíduo?
A campanha do CONAR, partindo de exemplos esdrúxulos, avoca para si a competência de dizer o que é ou não antiético em termos de publicidade. De quebra, infantiliza a população ao pressupor que a sociedade em geral não tem condições de discernir sobre eventuais abusos nas peças publicitárias.

Importante é lembrar, neste contexto, que o CONAR é uma associação civil sem fins lucrativos, não integrando o poder público. É formada basicamente por empresários e representantes de agências de publicidade e tem poder bastante restrito quando se trata em coibir abusos na publicidade: pode recomendar a alteração do comercial ou a suspensão de sua veiculação, somente nos casos em que a campanha ainda estiver no ar.

Já o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, por outro lado, operando de maneira difusa (tem competência concorrente para lidar com violações ao Código de Defesa do Consumidor), pode impor sanções mais rigorosas em caso de eventual publicidade ilegal – imposição de multa, determinação de veiculação de contra-propaganda, por exemplo.

Ou seja, o CONAR não é o único órgão que pode agir frente a uma publicidade abusiva e, quando o fizer, seu escopo de atuação é bastante limitado – diferentemente do que a campanha quer fazer crer.

Portanto, a campanha dissemina informações incorretas à população e ridiculariza determinadas demandas de grupos sociais. Não é isso que se espera de um Conselho de Ética. Espera-se que, ao invés de se incomodar com demandas da sociedade, o Conselho atue de forma ativa e atenta às demandas dos cidadãos, com eficiência e respeito.

Finalmente, posto que a campanha ridiculariza e desqualifica as reclamações de consumidores, além de confundir debate tão importante que, ao contrário, mereceria ser levado a sério e enfrentado com maturidade, rogamos a este órgão que retire a referida campanha do ar, num ato de reconhecimento de seu equívoco e numa sinalização ao diálogo com a sociedade.

Assinam esta carta:

1. Aliança de Controle do Tabagismo

2. Articulação de Mulheres Brasileiras – Rio de Janeiro

3. Casa de Amparo Herbert de Sousa – Paulista – PE

4. Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada

5. CLADEM/Brasil – Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher

6. Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde

7. CONSEA-MG – Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas Gerais

8. Fórum Brasileiro de soberania e segurança alimentar e nutricional – FBSSAN -

9. Fórum de Mulheres do Paulista -PE

10. Frente pela Regulação da Publicidade de Alimentos

11. Geledés – Instituto da Mulher Negra

12. Grupo cactos Gênero e Comunicação – Paulista-PE

13. Grupo de pesquisas sobre Gênero e Masculinidades – Gema / UFPE

14. Grupo Mulher Ideal Cariri

15. Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – IDEC

16. Instituto Papai

17. Instituto Patrícia Galvão-Mídia e Direitos

18. Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

19. Liga Brasileira de Lésbicas – LBL SP

20. Marcha Mundial das Mulheres

21. Movimento Infância Livre de Consumismo

22. Observatório da Mídia: direitos humanos, políticas, sistemas e transparência (Universidade Federal do Espírito Santo)

23. Observatório da Mulher

24. Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição – Universidade de Brasília

25. Rede de Homens pela Equidade de Gênero – RHEG

26. Rede de Mulheres da Amarc/Brasil

27. Rede de Mulheres em Comunicação

28. Rede Mulher e Mídia

29. Rede NUTRItodos

30. SOF- Sempreviva organização Feminista

 

Veja as publicidades Referidas no texto

Ouça Resposta ao Vivo sobre Publicidade do CONAR

CONAR recebe resposta ao vivo sobre sua ofensa ao consumidor

Obs.: A Rede NUTRItodos é signatária desta carta!

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