Impunidade enlatada

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O consumo de peixes é importante para saúde e esta afirmação é respaldada por diversos artigos científicos. É claro que o profissional nutricionista normalmente sugere o consumo do peixe fresco ou até mesmo congelado, contanto que a preparação seja cozida/assada/grelhada em vez de frita. Outra opção são os peixes enlatados, pois com a correria do dia a dia fica mais fácil abrir a lata e come-los, em vez de consumir hambúrguer, nuggets etc.

Sou nutricionista e semelhante a muitos brasileiros que desejam consumir peixes de uma maneira mais prática. Comecei a comprar peixes enlatados, em especial sardinha e atum! Sempre dava preferência às marcas conhecidas e embebidas em água ou óleo NÃO transgênico. Isto mesmo, os óleos de soja utilizados nestes enalatdos são transgênicos. Como 95% da soja brasileira é transgênica, dificilmente teremos sardinhas embebidas com óleo de soja orgânica ou girassol. Este último óleo, algumas marcas de atum já utilizam em seus enlatados.

Comecei a perceber que a famosa marca Coqueiro, não rotulava seus enlatados com o T de transgênico, mesmo utilizando óleo transgênico. Escrevi para Coqueiro do porque NÃO colocavam no rótulo do enlatado o símbolo T de transgênico. Sabe-se que de acordo com DECRETO Nº 4.680, DE 24 DE ABRIL DE 2003, todo alimento com valores acima de 1% de transgênico deve se rotular com o T. Fiz este pedido no início de 2017 para empresa, mas até o momento não recebi resposta (Março/2018). Entrei então, em abril de 2017, com denúncia no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA) contra a marca Coqueiro por não informar o consumidor sobre a presença do óleo transgênico. Alguns estudos já têm relatado que há maior incidência de quadros alérgicos por conta de alimentos transgênicos. Dessa forma, fiz denúncia, não só pela questão da LEI, mas também para não acusarem o peixe como o vilão da história.

O Ministério da Agricultura verificou que minha denúncia estava correta e a empresa teria que rotular seus enlatados. Fiquei muito contente com a notícia, pois a LEI foi cumprida. Porém, ao ler até o fim a denúncia, percebi que o MAPA permitiu que a impunidade continuasse até o dia 31/12/2017 para que a marca Coqueiro começasse a mudar seus rótulos. Fiquei irritado com a proteção à empresa, pois quantas pessoas poderiam deixar de comer peixe por acharem que ele é alergênico, sendo que talvez, este quadro estivesse mais associado ao óleo. Comecei a investigar outras empresas de enlatados e percebi que a marca Pescador também fazia o mesmo. Porém, para minha surpresa adivinhem quem era o dono da marca Pescador? Isto mesmo o proprietário da marca Pescador e Coqueiro são do mesmo dono. No caso, a proprietária se chama Camil, aquela que vende arroz e feijão! De novo informei a marca Pescador sobre a irregularidade, mas até hoje (Março/2018) estou aguardando resposta. Fiz, portanto, nova denúncia no MAPA e este verificou a irregularidade, mas concedeu de novo mesmo prazo (31/12/2018) para Pescador começar a rotular corretamente. Todavia, desta vez o MAPA comentou que estes enlatados, a partir do dia 1 de janeiro de 2018, não rotulados com T deveriam ser recolhidos.

Ano novo chegou e fui aos supermercados contente pois a IMPUNIDADE ENLATADA iria acabar. Ao andar entre os corredores de diversos supermercados em Campinas dei de cara com a falta de rotulagem adequada. As marcas Coqueiro e Pescador continuavam vendendo atum/sardinha sem informar adequadamente o consumidor. O MAPA já foi alertado, porém como o desrespeito às LEIS corre solto neste segmento, fica aqui meu alerta para escolherem enlatados que Respeitem sua Liberdade de escolha, cumprindo a Lei e divulgando a verdade sobre seus produtos.

Obs.: Em poucos supermercados de Campinas algumas embalagens de Atum/Sardinha da marca Coqueiro e Pescador já é possível ver o símbolo T de transgênico, a maioria continua abraçando a impunidade!

Alexander Marcellus é nutricionista. Mestre em Nutrição pela USP, Coordenador da Rede NUTRItodos e integrante da Aliança pela Alimentação Saudável. Nestes últimos 16 anos foi responsável pela mudança de propagandas irregular de mais de 10 empresas, dentre elas várias multinacionais! Para saber mais acesse nutritodos.com.br

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2 comentários para “Impunidade enlatada”

  1. Paulo Andrade disse:

    Alexander, posso entender sua preocupação em ver a lei cumprida, mas gostaria de lembrar que não existe qualquer diferença na composição do óleo de soja (ou de milho ou de algodão) vindo de uma planta transgênica ou da convencional. Os ácidos graxos são exatamente os mesmos, inclusive sua distribuição percentual na composição global. Os óleos também não têm resíduos de produtos aplicados na lavoura. Por fim, não há uma única evidência na literatura especializada de que o óleo d derivado de qualquer variedade de soja transgênica seja diferente do convencional. Portanto, do ponto de vista de nutrição, não há questão alguma aqui.

  2. alexander disse:

    Olá Paulo como sou nutricionista e trabalho muito como defesa do consumidor, existe um princípio muitas vezes esquecido. A inversão do ônus da prova. Em relação as pesquisas de resíduos de agrotóxicos, questiono. Por que as Pesquisas de Análise de Resíduos e Agrotóxicos (PARA -ANVISA) e Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC- MAPA) não analisam os agrotóxicos PARAQUAT e GLIFOSATO? Seria proteção as produtoras destas substâncias? Se o Ministério da Agricultura e ANVISA não tem liberdade de analisar dois importantes agrotóxicos, será que os produtos de agrotóxicos e sementes transgênicos, produziriam provas contra si? Outro olhar importante, a meu ver, é a quantidade de metais pesados em alimentos transgênicos. Porém, sempre me dou o direito a dúvida e caso o senhor tenha pesquisas independentes, qualis A internacional e alto grau de evidência, por favor traga para o debate. Infelizmente Paulo, tenho atendido muitos pacientes com quadros alérgicos ao consumirem óleo de soja transgênica. Porém ao modificar este óleo por óleo de soja orgânica ou de girassol desaparecem os quadros alérgicos. Fortaleço também que o código de ética dos nutricionistas permite não indicar alimentos, os quais, ainda haja segurança sobre seus efeitos no organismo. De qualquer forma, é um honra para nossa humilde página receber suas colocações. Os nossos leitores talvez não saibam, mas o nobre prof Paulo Paes Andrade é um importante estudioso dos transgênicos no Brasil.

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