Entrevista com Dra Ana Carolina sobre o novo rótulo de alimentos

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Ana Carolina é Nutricionista, Mestra e Doutora em NutriçãoProfessora do Departamento de Nutrição e do Programa de Pós-Graduação em Nutrição – PPGNPesquisadora do Núcleo de Pesquisa de Nutrição em Produção de Refeições – NUPPREUniversidade Federal de Santa Catarina – UFSCMembro da Diretoria Executiva da Associação Catarinense de Nutrição – ACAN (gestão 2016 – 2019).

Quando vamos ao supermercado Ana Carolina é comum ver nas embalagens de alimentos os famosos rótulos nutricionais, ingredientes…. Porém, muitas pessoas dizem não entender o que está escrito. Neste ano a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) está para mudar os rótulos de alimentos. Existem hoje duas propostas uma sugerida pela indústria de alimentos (rótulo de semáforo) e outra sugerida pelas Instituições de pesquisa (rótulo de triângulos). Gostaria, portanto que conversasse um pouco sobre isto conosco.

 

O que é rótulo nutricional? Qual a importância de ler os rótulos?

Ana Carolina: Rotulagem nutricional é toda descrição destinada a informar ao consumidor sobre as propriedades nutricionais de um alimento, que compreende a tabela de informação nutricional (declaração quantitativa de valor energético e nutrientes), que é obrigatória, e a declaração de propriedades nutricionais (informação nutricional complementar), que é facultativa. A rotulagem de alimentos, que compreende outros elementos além da rotulagem nutricional (como a lista de ingredientes), é uma importante ferramenta de comunicação entre a indústria e o consumidor. A leitura e a compreensão dos rótulos possibilitam escolhas alimentares informadas pelo consumidor, que são essenciais para possibilitar escolhas mais saudáveis.

 

Por que a ANVISA está mudando os rótulos de alimentos?

Ana Carolina: Porque identificou que existiam limitações e possibilidades de melhorias de algumas regras de rotulagem, incluindo questões que podiam confundir ou dificultar a compreensão

 

O que seria um rótulo que utilize o modelo de semáforo, e o que utiliza o modelo de triângulo?

Ana Carolina: A inclusão de rotulagem frontal seria uma das mudanças que a ANVISA está propondo – e ambos semáforo e triangulo são alguns dos modelos de rotulagem frontal considerados pela ANVISA. O semáforo usa as cores verde, amarelo e vermelho para indicar se nutrientes críticos (principalmente sódio, açúcar e gordura saturada) estão em quantidade baixa, média ou alta no alimento. O modelo do triângulo é um alerta de excesso de nutrientes críticos a ser aplicado apenas a alimentos com maior grau de processamento.

 

Quais países utilizam cada um destes modelos? Qual a vantagens e desvantagens de cada um deles?

Ana Carolina: O semáforo teve origem no Reino Unido e o triângulo é uma adaptação brasileira ao modelo de octógono aplicado no Chile. O modelo de semáforo se aplicaria a todos os alimentos, com exceção de laticínios. Mas não é adequado que a rotulagem se aplique a alimentos in natura ou minimamente processados, cujo consumo deve ser incentivado, conforme o Guia Alimentar para a População Brasileira de 2014 (GAPB 2014). Também é inadequado isentar todos os laticínios da rotulagem, visto que há laticínios ultraprocessados, cujo consumo deve ser evitado, conforme o GAPB 2014. Além disso, estudos já demonstram que o modelo de semáforo depende de interpretação do consumidor, demanda maior tempo para o consumidor entender quando comparado ao de alertas e pode confundi-lo quando há combinações diferentes (exemplo: 3 alertas amarelos são melhor ou pior que 1 verde, 1 amarelo e 1 vermelho?). Por fim, o que é ainda mais preocupante no modelo do semáforo é que a informação é dada por porção e que os parâmetros para definir cada cor são baseados em faixas de valores absolutos por porção, não em conteúdo relativo. Por exemplo, qualquer alimento cuja porção seja ≤100g e que tenha entre 5 e 13,5 g de açúcar na porção leva amarelo. Assim, pode haver alimento com porção de 15 g contendo 90% de açúcar (13,5 g) e outro com porção de 100 g contendo 6% de açúcar (6 g), e ambos serão caracterizados como moderados em açúcar. Ainda, os pontos de corte mudam um pouco para porções maiores de 100 g, então pode haver cores diferentes para alimentos com o mesmo perfil nutricional apresentados em porções de tamanhos diferentes. E o fato de a informação ser dada por porção dificulta a comparação entre alimentos com porções diferentes. Portanto, o modelo parece trazer mais complicações que avanços. Já o modelo do triângulo traz alertas quando há presença ou excesso dos nutrientes e ingredientes de mais relevância para a Saúde Pública, por serem associados a prejuízos para a saúde. A informação é simples, clara, direta e não demanda cálculo ou interpretações pelo consumidor. Os alimentos a serem aplicados e os isentos de aplicação do modelo, os ingredientes e nutrientes de alerta, bem como os parâmetros para utilizá-los vão ao encontro das recomendações da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) e do GAPB 2014. Os critérios de alerta são em porcentagem (proporção de nutriente ou ingrediente do alimento), o que não muda mesmo alterando a porção O formato foi adaptado de modelo já vigente no Chile após estudo da área de design da informação em saúde, com melhorias de contraste, forma e resolução, além de outras melhorias propostas para a tabela nutricional e a lista de ingredientes.

 

Você comentou sobre o Chile, algumas pessoas, as quais defendem o modelo do semáforo no Brasil – dizem ser mais interessantes para utilizarmos aqui. Também afirmam que o modelo de triângulo utilizado no Chile é confuso.

Ana Carolina: A adoção de uma estratégia de saúde pública e de direito do consumidor não pode ser baseada em opiniões ou no mercado, mas em evidências científicas. E o que as evidências mostram é que o triângulo funciona melhor para o que se propõe.

 

O que a população pode fazer para ter um rótulo de mais fácil leitura?

Ana Carolina: Participar da consulta pública da ANVISA para dar sua opinião sobre o rótulo que facilite mais não apenas sua leitura, mas sua compreensão sobre o perfil nutricional de um alimento e, consequentemente, que tenha maior potencial em auxiliar sua escolha.

 

Como o novo rótulo de triângulo poderá auxiliar a população a ter mais liberdade de escolha?

Ana Carolina: A liberdade de escolha é condicionada principalmente por duas premissas: ter opção de escolha e ter informação para poder escolher de forma consciente. A informação que facilite a compreensão auxilia o consumidor a fazer uma escolha com mais clareza sobre o que está escolhendo. E, por tonar essa comunicação mais transparente, pode incentivar a indústria a melhorar seus produtos ou criar opções mais saudáveis.

 

A REDE NUTRItodos, agradece a Dra Ana Carolina pela excelente explanação e o apoio de informar adequadamente nossos internautas. Muito obrigado Dra Ana Carolina, desejamos que a propostas sugerida pelas pesquisas que vem desenvolvendo em torno do rótulo se virem realidade.

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