Entrevista com Prof Pos-Dr Marcelo Rogero, sobre a ação dos nutrientes e compostos bioativos presentes nos alimentos sobre os genes (Nutrigenômica)

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Nutricionista formado pela Faculdade de Saúde Publica da Universidade de São Paulo-USP; Mestre Ciência dos Alimentos pela Universidade de São Paulo-USP; Doutor em Ciência dos Alimentos pela Universidade de São Paulo-USP; Pós-doutorado em Ciência dos Alimentos pela Universidade de São Paulo-USP; Professor Doutor da Faculdade de Saúde Publica da Universidade de São Paulo -USP

O que é genômica?

A genômica estuda as funções e as interações de todos os genes do genoma, incluindo as suas interações com os fatores ambientais, como a alimentação.

O que é Nutrigenômica?

A nutrigenômica compreende o estudo da modulação da expressão gênica por nutrientes e compostos bioativos presentes em alimentos. Atualmente, há grande interesse por parte de pesquisadores de diversos laboratórios em todo o mundo no estudo de nutrientes e compostos bioativos dos alimentos que regulem a expressão de genes envolvidos na gênese e na redução do risco de doenças crônicas não transmissíveis, como câncer e doenças cardiovasculares.

O que é nutrigenética?

A nutrigenética se preocupa com os efeitos de determinadas variações genéticas (por exemplo, polimorfismos de nucleotídeo único – SNP) sobre a responsividade para a dieta.

Como podemos utilizar os conhecimentos da Nutrigenômica no dia a dia?

Os conhecimentos relacionados à nutrigenômica aumentam dia-a-dia e possibilitam que o ser humano possa escolher alimentos que contenham nutrientes e compostos bioativos que reduzam o risco de doenças crônicas não transmissíveis. Contudo, ressalta-se que muitos estudos utilizam nutrientes e compostos bioativos de forma isolada e em doses elevadas, cujas quantidades podem ser prejudiciais à saúde quando ingeridas de forma crônica.

Hoje temos o mapa de nossos genes, como a ciência da nutrição poderá utilizar estas informações?

A partir do sequenciamento do genoma humano, foi possível constatar que temos cerca de 30 mil genes. Contudo, um ponto relevante a ser destacado nesse contexto refere-se ao fato de não conhecermos ainda, de modo profundo, como esses genes são regulados por nutrientes e compostos bioativos. Aliado a esse fato, é importante considerar que a presença de polimorfismos gênicos pode alterar as respostas metabólicas esperadas em estudos na área de nutrição.

Qual a importância do aminoácido glutamina para nutrição humana? E qual a sua relação com a nutrigenômica?

A glutamina é um L-a-aminoácido de 5 carbonos, com peso molecular de 146,15 e composição elementar de carbono (41,09%), hidrogênio (6,90%), oxigênio (32,84%) e nitrogênio (19,17%), sendo em, pH fisiológico, classificada como um aminoácido neutro e, nutricionalmente, como um aminoácido condicionalmente indispensável. A glutamina está presente na composição de proteínas vegetais e animais. Por exemplo, considerando a porcentagem da proteína pelo seu número de aminoácidos, verifica-se que a glutamina representa 35,1% da gliadina presente no trigo; 24,2% da proteína do feijão; 9,6% da glicinina presente na soja; 8,9 % da β-caseína presente no leite de vaca; 3,8% da ovalbumina presente no ovo de galinha; e 2,9% da actina presente no músculo esquelético.

A glutamina está envolvida na transferência de nitrogênio entre órgãos, detoxificação de amônia, manutenção do balanço ácido-base durante a acidose, possível ação reguladora direta da síntese e degradação protéica, precursora de nitrogênio para a síntese de nucleotídeos. É necessária para o crescimento e diferenciação celular, transporte de cadeia carbônica entre os órgãos, fornecimento de energia para células de rápida proliferação, como enterócitos e células do sistema imune. Age como precursora da ureogênese e gliconeogênese hepática e de mediadores como o GABA e glutamato; promove melhora na permeabilidade e integralidade intestinal, aumenta a resistência à infecção por aumento da função fagocitária, e fornece energia aos fibroblastos, aumentando a síntese de colágeno.

Atualmente diversos estudos têm evidenciado o papel da glutamina na regulação da expressão de genes envolvidos com a resposta inflamatória em diferentes células do organismo. Dentre os possíveis mecanismos de ação da glutamina, destaca-se a modulação da via de sinalização do fator de transcrição chamado fator nuclear kappa B (NF-κB), o qual promove a transcrição de genes relacionados a resposta inflamatória. Cabe destacar que em enterócitos, a presença de glutamina reduz a síntese de citocinas envolvidas em doenças inflamatórias intestinais.

Qual a importância de estudos em animais de laboratório para futuros estudos de nutrigenômica em humanos?

Estudos realizados in vitro com cultura celulares e in vivo com animais de laboratório, como ratos e camundongos, permitem ao pesquisador investigar se nutrientes ou compostos bioativos dos alimentos apresentam a capacidade de modular a expressão de determinados genes, ao mesmo tempo em que permite conhecer os mecanismos de ação desses nutrientes e compostos bioativos em vias de sinalização intracelular. Aliado a este fato, estudos com animais de laboratório permitem a retirada de órgãos e células para a realização dos estudos supracitados. Cabe ressaltar que a resposta obtida em animais de laboratório pode diferir, em parte, daquela observada em humanos, o que sugere cautela na extrapolação de resultados obtidos em animais de laboratório para humanos.


Qual o papel dos ácidos graxos poliinsaturados(AGPI), ômega-3 e 6 no organismo humano? E em quais alimentos encontramos estes nutrientes? Qual o papel do ácido graxo ômega 3 em estudos de nutrigenômica e doenças crônicas não transmissíveis?

Os (AGPI) ômega 3 e ômega 6 são considerados essenciais para o ser humano. A essencialidade dos ácidos graxos está relacionada a dois fatores, ou seja, os (AGPI) ω-3 e ω-6 não são sintetizados pelo organismo, e a ausência de ingestão dos mesmos acarreta em sintomas clínicos adversos. Além disso, a ausência de tais nutrientes na dieta está relacionada a síndromes que podem até provocar a morte do indivíduo. A ausência de ingestão do (AGPI) ômega 6 está relacionada principalmente a problemas dérmicos, enquanto a ausência de ingestão de AGPI ômega 3 está relacionada a distúrbios neurológicos e visuais.

O (AGPI) ômega 6 podem ser encontrados em diferentes óleos vegetais — por exemplo, óleos de milho, de girassol, de canola e de soja. Os (AGPI) ômega 3 chamados ácidos α-linolênico também são encontrados em óleos vegetais, como de canola e de soja. Os (AGPI) ômega 3 chamados ácido eicosapentaenóico (EPA) e ácido docosaexaenóico (DHA) são encontrados em peixes como truta, salmão, arenque, sardinha, cavalinha, bem como no óleo de peixe.

Cabe ressaltar que apesar do preponderante papel dos (AGPI) ômega 3 e ômega 6 na pele e nos sistemas nervoso e visual, tais ácido graxos estão também implicados no funcionamento de diversos órgãos e sistemas, basicamente pela sua conversão em eicosanóides — mediadores lipídicos farmacológicos —, que incluem, entre outros, as prostaglandinas, os leucotrienos, as tromboxanas e as lipoxinas.

No contexto da nutrigenômica, constata-se que os (AGPI) ômega 3 chamados ácido eicosapentaenóico (EPA) e ácido docosaexaenóico (DHA) atuam na redução da expressão de genes envolvidos na resposta inflamatória, a qual está presente na etiologia de diversas doenças crônicas não transmissíveis.

Muitos iniciantes em academia começam a tomar suplementos de aminoácidos e proteínas para ganho de massa muscular. O que você diria para estas pessoas?

A necessidade diária de ingestão de aminoácidos e de proteínas de indivíduos que praticam academia pode ser alcançada por meio de uma dieta balanceada. Um fato importante e ao mesmo tempo preocupante relacionado à ingestão de suplementos é a contaminação de suplementos por esteróides androgênicos anabólicos. Em um estudo, no qual foram avaliados 634 suplementos comercializados em 13 países (Holanda, Áustria, Inglaterra, USA, Itália, Espanha, Alemanha, Bélgica, França, Noruega, Suíça, Suécia, Hungria), constatou-se que 15% destes suplementos continham ao menos esteróide androgênico anabólico.

Obs.: Agradecemos ao prof Marcelo Rogero pela gentileza de ter respondido esta entrevista.

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